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Archive for janeiro \30\UTC 2013

ela está no meio de nós, e seu corpo fino, esguio como uma flecha, me atinge e, contorcido, me atiro no curto abismo do lado que é meu, ou era, ou tinha certeza de alguma certeza, neste colchão macio e parcelado em seis vezes com juros, com juras amorosas, de uma pequena eternidade. ela está no meio de nós, e seu cheiro esverdeado já não é o mesmo, o corpo é forte e os seios grandes comprimem meu braço empurrando para um lugar que era, ou tinha certeza, ser meu, herdade do corpo, que agora despenca num abismo frio e claro. seu cheiro já não é o mesmo, mas lhe farejamos num deserto longe, inconfundível, cães de guarda do seu corpo, do seu tempo. ela está no meio de nós, socando meus rins , o dorso do outro corpo carinhoso, como se empurrasse aos nossos abismos, o chão lá embaixo, quadrado e frio e branco, como se não nos quisesse, e a vontade de crescer com força, gáudio e flama. me empurra para longe, faz do corpo sua flecha e atira, mais longe. ela está no meio de nós e deixa um rastro de odor, saliva e muco. lago de urina demarcando território, tal cão de rua no colchão macio e meu, não tão meu, fatia agora pequena de mundo, um abandono, exílio sem cor, lá longe, longe. nada nos pertence: espaço, tempo, dela, crescendo quase em vertigem, cremes no cabelo e fones de ouvido. é preciso crescer. um dia ela não estará no meio de nós. e me envia cartas de onde nunca pude chegar, para afirmar aos seus: eu vim até onde ele nunca pôde chegar. e quando o mundo acabar, quando nada mais tiver de ser visto, ela estará no meio de nós, com seu corpo cansado de mundo e amor. sentará perto de nós. desaparecerá.

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