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Archive for setembro \26\UTC 2011

de uma conversa amena com júlia lopes: eu só te aguardo, não te espero mais. ao tempo em que rio quando esquecer os óculos e promessas e felicitações de aniversário; mas não me olha, pois promete trazer lembranças do free shop para a menina um dia. ali, os campeões anônimos do futevôlei  em vibração e torcida. esqueço a última fala, remexo os bolsos. se tocam como se tocariam homens rudes e troncos rijos. desfiei o frango do almoço para compor o jantar: digo. ela: não sei bem o que esperar da vida. eu: você pode combinar com queijo e presunto e pão. e diz: estou preocupada, avancei o sinal em hora suspeita, ele irá dizer de mim qualquer e vou chorar. eu: tento um consolo, mas me assusto com o voo rasante do helicóptero sem luzes, sem sinalização. que imprudente magnata pilotaria tão alta noite e breu, tão preciso na hora do abraço? penso. ela: eu queria ter coragem de dizer. eu: torço para que você apenas diga. ela: ouço, agora, trovões fora de época, do tempo. depois de chorar horrores, de sofrer a encalhar o corpo, escreveremos um livro paradidático a ser adotado nas melhores escolas sobre o sentido oculto de cada parágrafo desse infortúnio e conturbado enredo chamado amor.

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não sou nenhum acrobata,

mas tenho a impressão de já tê-lo conhecido.

aperte bem o cinto, vamos arrancar.

não olhe pra fora,

o caminho apavora,

aqueles rostos estranhos pretendem reprimir.

não quero calmante,

nem droga nenhuma, apenas

mantenha os vidros fechados,

aquele ar não dá pra respirar.

não sei pra onde ir,

não tenho dinheiro pra sacar,

não vou comer.

nesta madrugada fria,

preciso fugir de todos

pra não encontrar nada.

é melhor que seja assim.

quero lembrar de onde o conheço,

sei que estivemos muito próximos,

olhe para mim, diga o que você vê?

o que você vê?

 

Caroline Campoy

 

 

Eu sou o acrobata da jaula dos fundos, porém todos me vêem.

Vou deixar minhas garras à mostra na grade e me contorcer preso às algemas que te livram das minhas unhadas e dentadas bruscas, porque você é fraco e covarde mesmo parecendo ser o preferido do espetáculo de Deus.

Se eu escapar daqui, vou sim arrancar ferozmente esse sorriso do seu rosto triste, pusilânime; é como se você quisesse ser o próprio Deus.

As tochas estão apagadas e vocês não têm fósforo.

Não adianta você tomar dimetiltriptamina, a sua imbecilidade explodirá sem nenhuma discrição.

Vou deixar minhas presas à vista na esperança de que alguém tenha medo e todos se afastem.

Eu sou o acrobata torturado da jaula dos fundos, porém todos me vêem. O ar que respiro é diferente do seu, porque você  pensa que é superior a mim.

Mas eu sou o uivo que arrebenta seus tímpanos e o urro que lateja em suas tripas.

Entre um passo e outro, você era eu ontem.

Uma espera na fila do circo com suas crueldades e cruezas, ingressos alfanuméricos, nenhuma esfinge, um terror. Um terror. Repita comigo: só terror.

Elaine Camilo


 

 

eu sou o acrobata do semáforo

e do banco da frente você finge que não me vê.

dou discretas batidas em seu vidro

e você se contorce, amarrando-se a um cinto

que livra você do mal, toda sorte ruim,

ocasionais sentimentos de culpa

e responsabilidade por mim, bruscamente freados.

deixo para os segundos finais do meu espetáculo,

para que leve embora, meu rosto

triste, miúdo de quem teve

qualquer lugar para chegar arrancado do caminho.

leve-o para onde deve ir. seu desejo de comprar

aquele fogão com acendedor automático

aparentemente queima meus olhos suplicantes.

o consumismo, a tv, os calmantes químicos

e os anti-depressivos impedem, discretamente,

a explosão de angústias do seu ser,

natural de todo ser. não deixam

seus vidros abertos ao mundo,

nem à esperança de oxigená-lo. cegam,

esvaziam você e deixam essa estúpida sensação

de que sem pílulas e produtos perecíveis

você talvez corte os pulsos

cuidando para não sujar o estofado novo.

eu sou o acrobata do semáforo

e você não me vê mais. respiro o ar

que está fora dos vidros fechados

que nos separam. faço agora minhas acrobacias

no seu vazio interno, aquele que você não quer ver

e que os donos de caixas eletrônicos,

de empresas de nomes estrangeiros e alfanuméricos,

publicitários, políticos e jornalistas comprados

não querem que você veja.

sou parte desse enigma, dessa esfinge

que silenciosamente atormenta sua paz fictícia.

fictícia, diga comigo: fictícia.

 

Lucas Bronzatto

 

 

No dia 10 de Setembro (2011) estive na Biblioteca Monteiro Lobato (São Bernardo do Campo, SP) para falar um pouco sobre meus poemas a um grupo de pessoas que participam do Projeto Tantas Letras, que tem a curadoria do poeta Tarso de Melo, a quem agradeço o convite.
Depois da boa conversa, propus ao grupo que (a quem desejasse, claro) criasse sua própria versão da Acrobacia, que tomou um corpo enorme, um descontrole, como já postei outras vezes aqui.
Três versões muito fortes e bonitas me chegaram por agora e mostro aqui para vocês.

 

 

 

 

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