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Archive for setembro \24\UTC 2010

eu vivo no deserto. há lâmpadas de mercúrio, asfalto  rijo, aviões, mas  é infindo o deserto. e neste momento, quando mais perto que chego de ti é quando sorri numa minúscula foto e teus óculos verdes ray-ban, última moda recuperada dos anos oitenta, combinam com a cor dos ditos azulejos de Braga por trás de ti, neste momento, procuro uma grata fortuna e uma proposta de sucesso que há de me chegar pelos correios, pela empresa de entrega ou pelo canal aberto de televisão. mas, agora, vamos escrever uma carta, um bilhete, como quem se despede, como quem se despede, como quem se despede. um dia você volta de chave em punho e abre este baú de couro ressecado e odor, onde guardo esperanças, louva-deuses e o umbigo caído da filha mais velha. que é séria e sentimental, ao ponto de verter lágrimas diante do nome do bisavô que nunca vira: Sá é um nome próprio. um sobrenome de rua que deságua neste lugar. e com este pedaço de papel me ocupo em perfurar o teu silêncio, teu escudo defletor, pois nasceste para polir a couraça rija que te cobre e guarda. para limpar teu ray-ban na barra da saia que Cleide coseu com mãos de fada e ofício. neste mesmo pedaço de papel irão fazer a leitura do salmo que agora te escrevo numa língua morta de um país estranho, sem gramática ou tradutor. eu te saúdo com a minha mudez. o desespero que esta cena mostra, será o final de uma película amada pela multidão. um público cego.

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