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Archive for setembro \21\UTC 2009

 

estamos em casa, senhora, como estávamos dez anos antes, e  o   calendário que nunca move, ali, nunca riscado os dias que passam, os dias santos, da graça e outro dia, mais. na tv um americano fazia bolhas de sabão gigantes. uma chegou a ter tamanho de baleia. teimar um pensamento na enormidade e beleza das coisas inúteis: bolhas de sabão, carne de baleia, um poema, calendário de mil novecentos e setenta e três. e no discurso que falha, vai embora, assim. mais alto de não ter e vai embora. mais alto que um dia sem fim, de chama e fuligem. alguém que te masca, masca, sem fim como um chicle entre línguas e dentes de violet beauregard. declaro guerra a você, senhora, entrincheirado o coração e víceras ardentes. meu arsenal é pobre, da primeira grande guerra desafia tonto seus mil megatons e pistolas desintegradoras. a palavra que fulmina. chuva, fuligem, chicle. estou marcado e atingido. alvo de primeira, patinho de seu parque de diversões no estojo de blush. meu traje é passeio completo.

 

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eu sou o acrobata preso no porta-malas,

deitado de mau jeito, com uma venda nos

olhos e um dedo decepado. um formigueiro

estúpido na nuca e um braço morto. e você

não me vê porque não quer. posso me

contorcer de alegria até explodir com discreta

naturalidade. como sempre fui. não sei o que

acontece lá fora. e minhas pernas estão

aborrecidas demais para chegar a algum

lugar. puta sorte ruim. mas consigo rir disso

tudo. você consegue? se pelo menos você

tivesse algum controle sobre seu corpo, seu

rosto triste e fundo. ou mesmo sobre o acaso, o

abismo, as freadas bruscas, o oxigênio. estes

solavancos sem esperança, por exemplo. já me

pouparia a vida, o braço esquerdo, o dedo mínimo

da mão direita. eu sou o acrobata preso no porta-

malas e este buraco é apertado demais para

nós dois. estamos sem fogo, sem aparência,

sem os nossos fitoterápicos e você ainda jura,

jura que vai perder a cabeça, que vai acabar

comigo. o sumo ralo de três talos de alface, um

chá de arruda que mal dá pra dois. o oxigênio

entra calmo pela frincha da lataria azul novinha

novinha, e areja o mundo, o seu miolo mole

 

                                                                                

                                                                                             ( Júlia Studart)

 

 

 

Com vagar eu retomo esta série de acrobacias remix. Com vagar. Tal qual a poesia de Júlia Studart, e sua magnífica versão. Com vagar, Júlia escreve. Moça inteligente, pesquisadora, guarda os poemas na gaveta para qualquer dia. Ou não. Eu de cá me sinto um pouco responsável por isso. É bom saber. Júlia Studart nasceu na cidade com nome de forte, mas agora habita a ilha do desterro. Júlia acorda sempre com outro Lima, e se sente feliz.

 

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só para carlos augusto lima

um poema que puxa outro. um poema bonito

de heitor ferraz mello. aqui, em coisas imediatas:

http://coisasimediatas.blogspot.com/2009/09/so-para-carlos-augusto-lima.html

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o que se procura é uma banca de jornais aberta a esta hora da noite. me preocupo agora com o plano infalível de conquistar toda a região que compreende os bairros mais nobres e mais duvidosos desse lugar. nenhum lugar é igual. nenhum merece a visita da vendedora de cosméticos da multinacional americana. e por falar nisso, quero morar em san diego e não lembrar. e quero ter coisas descartáveis para vender num bazar, pois sempre gostei dessa idéia. de vizinhos servindo limonada gelada e uma falsa segurança conduzindo atiradores de plantão. mas nossos vizinhos falam alto e publicam intimidades no jornal e na televisão. a mãe estava infeliz e cometeu erro grave. o pai ficou com o carro de marca francesa. são vinte e duas e quarenta e cinco. ainda servem o caldo de peixe. outro dia bife acebolado. e tudo invade o apartamento com poção de enjôo antes de lembrar da moça com giletes nos dedos, palavras cruzadas e letras geminadas no nome. volto ao infalível disfarce e há tempo de calçar os chinelos antes da próxima chance de salvar o planeta. poderíamos morar juntos. quem sabe. as cortinas lavadas exalam um cheiro macio. o mundo está limpo e as malas prontas. a qualquer hora.

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eu sou o banco de trás, nossa

esfinge possível, e só você, o

acrobata, não me vê.  amarrado a

este cinto, arrancando com vagar

o seu rosto triste, até ir embora,

só você, um abismo, não me vê.

(o dia como um caldo denso, e o

que pode haver de melhor?  a

vida é um filme bonito, uma canção

de favor,  mas agora enfrentarei

algum trânsito: a vida hostil

dos guardados,  amor e assado de

panela, amor que dorme  à maneira

de tarântulas alegres e verdes e

negras. c’mon baby, repita comigo:

nenhum coração está completo.

fiat lux, diga comigo, que todas as

coisas funcionem, riquixá, larvas,

esperanças enlatadas (as assombrosas

companhias) corpo-rocha, silêncio

lago (soma de morte e sabor),  o

movimento ancestral  dos barcos.

eu me satisfaço com a minha casa e

o deserto,  temos uma canção em

comum, mas o mesmo ar que respiro

não é o seu. a lanterna lampeja

e falha.  ao redor o mundo descolore.

o próximo passo pode ser o da

terra que desaba, afundar como

caranguejos, vê esta linha aqui?).

até você ir embora, vou deixar as duas

mãos no vidro, como se quisesse

chegar a algum lugar.  entre os  finais

do grande espetáculo, você  não vê

minhas palavras vazando:  como estou

 dirigindo? ou: quem é mais acrobata?

 

 

 

(Diego Vinhas)

 

 

A versão de Diego Vinhas, poeta e amigo querido, me causou um engasgo, um susto e alegria. Não preciso esticar muito a conversa, nem explicar o porquê. Os mais atentos e os amigos irão perceber o motivo. Também serão tomados pela surpresa. Com esse engasgo encerro um ciclo, na 10ª versão dessas acrobacias, nesse descontrole que toma a forma bonita que é o verso. Agradeço, Diego, de coração. Outras acrobacias virão. Com o tempo. O tempo.

 

 

 

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