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Archive for agosto \30\UTC 2009

eu sou o acrobata do banco – e záz!

8< – – – – – – – – 

hiberno agora num denso propósito de

não retornar à posição anterior – qual?

aquela todas nenhuma

hóspede aos poucos da linha invisível

atendo aqui acolá ao aceno 

para que permaneça no rumo-resposta

do enigma. meu itinerário não foi tão

pacífico: explodimos todos (você diz) e

parece não há mais geografia alguma 

sede e afinco no nome que me dou – mas é só

esse o fio que retomo para atender. 

eu sou o acrobata – lembre-se

por um momento pareço rejeitar

as dimensões do afeto a visão que

me lanças daí meu corpo às

vezes avança para o centro

quando atravesso teu pasmo

e assomo veloz no espelho dessa

paisagem resumida – por quem por onde

eu não retorno nunca – eu ainda não nasci

completamente para esse ab

surdo móvel mundo

 

(Cândido Rolim)

 

 

Cândido Rolim (http://signagem.blogspot.com) é um dos melhores poetas produzindo hoje, por aqui, nessa cidade com nome de forte. Fez uma dobra a partir da acrobacia. Criou outra coisa. Uma coisa que, em si, é forte, densa, como seus poemas. Este poema é só dele. De ninguém mais. E eu “não controlo mais nada”.

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Eu sou o acrobata do banco de trás

 

eu sou o acrobata do banco de trás

e só você me vê

num  reflexo rebatido do retrovisor 

inclinado sobre o outro,

enquanto eu me desdobro sob a benção 

frouxa deste cinto, querendo  lamber o vidro frio com  marcas de chuva.

Não olhar para trás, na verdade é o que menos você quer hoje,

olhar para trás, procurando o fósforo que não há, nem velhos acendidos

na boca do fogão.

explodo a cartela de calmantes usadas em outros tempos.

o barulho me agrada, hoje não há.

falta oxigênio no mundo.

eu sou o acrobata no banco de trás e você já não me vê,

entre caixa de remédios e sapatos.

no caixa eletrônico com seus riscos e asterisco,

tua imagem distorcida na gota da chuva, um abismo.

Um abismo, repita comigo! Mudo olhando para ela (um abismo).

 

 

( Cláudio Nonô Picanço)

 

 

 

Esta é uma versão viceral do Cláudio Nonô, amigo muito querido. Versão regada a rock, noitadas, saudade dos amigos longe, litros de cerveja, pitadas de melancolia, risos e, claro, 365.000 paixões mal curadas. Cláudio é biólogo, doutor, ex-baterista, funcionário público, Fortaleza hoje, para ele, é uma fotografia na parede, mas dói. E, principalmente, é pai do Felipe e, em breve, da Maria Eduarda. Mais? Tem um irmão que é da pesada.

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eu sou o acrobata do banco da frente

numa diagonal à esquerda, com

você. as duas mãos no volante até rachar

o ponteiro do medidor de velocidade. mas

não controlo nada. você me vê? seus braços

com medo de abismo e fúria, espasmo e

vômito. preciso chegar a algum lugar, você

repete. você contorce a língua, gagueja

e repete: preciso chegar a algum lugar. diz

que vai abrir os vidros para oxigenar o

mundo. diz que isto é o céu, uma ou duas

esperanças. mas isto pode nos matar rápido

demais. ninguém nos contou nada, nem

avisou sobre isso, porque ninguém sabe

sobre isso. consegue ver os meus olhos

alegres, pelo retrovisor? eu vejo bem os

seus, arregalados. suas mãos fincadas no

estofamento novo e a caixa de fósforos

vazia. este minuto final do espetáculo

acaba aqui. o abismo abre vento, sombra

e fila de caixa eletrônico. continuamos muito

separados, mas estamos perto. eu sou o

acrobata do banco da frente numa diagonal

à esquerda, sem você. posso até errar sua

vida na curva. mas não controlo nada    

 

       

( Manoel Ricardo de Lima)

 

 

 

Manoel Ricardo de Lima esticou a idéia da acrobacia. Contorceu, dobrou, levou a seu extremo. Esta é uma versão viceral, tensa, um golpe. Uma outra coisa, um outro poema. Apareceu como uma surpresa, como se avisassem que você havia ganhado uma passagem para um lugar que sempre quis. Este poema não é meu. Nunca foi. Este poema é o que eu queria ter escrito.

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Web flyer - Manual de Acrobacias POST

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para Carlos Augusto Lima

 

sou o acrobata do banco de trás

não uso cinto de segurança

não me defendo não tenho medo

das freadas mais bruscas

atenho-me junto ao vidro

sou o acrobata que brinca

em sonho e espera

uma vertigem um acaso

ao fim do espetáculo

deixo as mãos no vidro

meu corpo flutua em algum ponto

entre a rua e os postes armando-se

de viagens aéreas

não quero descer a minha vida circula

apenas pelo ar é deste espaço invisível

que miro você por detrás de trás

do banco de trás

e só você me vê

 

 ( Annita Costa Malufe )

 

 

Annita Costa Malufe é uma das poetas do tempo presente que mais gosto. Leio e releio seus poemas constantemente. Annita escreve algumas coisas que eu gostaria de escrever. Em seu último livro de poemas, “Como se caísse devagar” (Editora 34, 2008), há uma “carta resposta” para um certo Carlos Augusto Lima. Nossa conversa se dá assim, da melhor forma: poema.

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Eu sou o acrobata do banco de trás

 

eu sou o acrobata do banco de trás

 

e você só vê meu reflexo rebatido nos

 

 vidros. vou permanecer inclinado sob a benção

 

têxtil deste cinto que me livra

 

do mal, dos agouros de todo dia, corvos,

 

cobranças e freadas bruscas. minutos

 

antes do fim de tudo isso, do grande espetá-

 

culo, você por ir, arrancando

 

com vagar o seu rosto triste, miúdo

 

como pretendesse prolongar a partida.

 

o itinerário são dois compassos

 

de uma canção. fósforos e acendedores

 

não há mais. tomaremos

 

remédios discretos, mas ex-

 

plodiremos sob as vistas de todos.

 

vou deixar os vidros abertos na esperança

 

de oxigenar dentro do carro e arejar cada

 

camada do devido esquecimento.

 

eu sou o acrobata do banco de trás

 

e você não chega a me ver.  certo que

 

não partilhamos o mesmo fôlego, mas

 

entre um passo e outro, uma

 

espera na fila do caixa eletrônico

 

com seus enigmas, os cheiros dos outros,

 

as latências do que nos habita, se despencamos,  

 

um abismo. repita agora: um abismo.

 

( Renato Mazzini)

 

 

 

Renato Mazzini é um poeta que muito gosto. Seu livro, Paisagem com Dentes chegará em breve. Esta é sua versão para o “manual”.

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versão para carlos

 

eu sou o acrobata do banco de trás

e você não me vê, queria enfumaçar os

vidros com a boca e distender o cinto

apertado às mãos, por equívoco,

como se assim pudesse dizer

das coisas trocadas sem explicação

à véspera do fim, naquele último espetáculo,

enquanto você permanecia, mesmo calada,

como eu, sem saber se iria chegar a algum lugar,

lembro das bocas do fogão sem funcionar e da inutilidade

dos fósforos já riscados, não, não faríamos mais o uso dos discretos

remédios homeopáticos, trocaríamos apenas as caixas,

disfarçando qualquer instinto de intencionalidade.

gostaria de poder me aproximar do vidro, para que você

me visse, eu sou o acrobata do banco de trás, mas não,

você não me vê mais, sem ar, desaparecendo,

sufocando por dentro, você continua sem saber,

na espera na fila do caixa, nenhum mistério além do

abismo, repetiria comigo, o abismo

 

 

(Érica Zíngano)

 

 

 

Érica Zíngano (http://projetoeu09.blogspot.com) nasceu em Fortaleza, mas já vive a um tempo em São Paulo. Desenvolve alguns trabalhos entre a escrita e as artes visuais, mas esse lugar de precisão já não importa mais. Érica ganhou um dos poemas presentes no “manual de acrobacias n.1”. Agora ela me envia sua versão. Sinceramente, não sei onde isso tudo pode parar. Mas, no momento, isso não importa.

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