não sou nenhum acrobata,
mas tenho a impressão de já tê-lo conhecido.
aperte bem o cinto, vamos arrancar.
não olhe pra fora,
o caminho apavora,
aqueles rostos estranhos pretendem reprimir.
não quero calmante,
nem droga nenhuma, apenas
mantenha os vidros fechados,
aquele ar não dá pra respirar.
não sei pra onde ir,
não tenho dinheiro pra sacar,
não vou comer.
nesta madrugada fria,
preciso fugir de todos
pra não encontrar nada.
é melhor que seja assim.
quero lembrar de onde o conheço,
sei que estivemos muito próximos,
olhe para mim, diga o que você vê?
o que você vê?
Caroline Campoy
Eu sou o acrobata da jaula dos fundos, porém todos me vêem.
Vou deixar minhas garras à mostra na grade e me contorcer preso às algemas que te livram das minhas unhadas e dentadas bruscas, porque você é fraco e covarde mesmo parecendo ser o preferido do espetáculo de Deus.
Se eu escapar daqui, vou sim arrancar ferozmente esse sorriso do seu rosto triste, pusilânime; é como se você quisesse ser o próprio Deus.
As tochas estão apagadas e vocês não têm fósforo.
Não adianta você tomar dimetiltriptamina, a sua imbecilidade explodirá sem nenhuma discrição.
Vou deixar minhas presas à vista na esperança de que alguém tenha medo e todos se afastem.
Eu sou o acrobata torturado da jaula dos fundos, porém todos me vêem. O ar que respiro é diferente do seu, porque você pensa que é superior a mim.
Mas eu sou o uivo que arrebenta seus tímpanos e o urro que lateja em suas tripas.
Entre um passo e outro, você era eu ontem.
Uma espera na fila do circo com suas crueldades e cruezas, ingressos alfanuméricos, nenhuma esfinge, um terror. Um terror. Repita comigo: só terror.
Elaine Camilo
eu sou o acrobata do semáforo
e do banco da frente você finge que não me vê.
dou discretas batidas em seu vidro
e você se contorce, amarrando-se a um cinto
que livra você do mal, toda sorte ruim,
ocasionais sentimentos de culpa
e responsabilidade por mim, bruscamente freados.
deixo para os segundos finais do meu espetáculo,
para que leve embora, meu rosto
triste, miúdo de quem teve
qualquer lugar para chegar arrancado do caminho.
leve-o para onde deve ir. seu desejo de comprar
aquele fogão com acendedor automático
aparentemente queima meus olhos suplicantes.
o consumismo, a tv, os calmantes químicos
e os anti-depressivos impedem, discretamente,
a explosão de angústias do seu ser,
natural de todo ser. não deixam
seus vidros abertos ao mundo,
nem à esperança de oxigená-lo. cegam,
esvaziam você e deixam essa estúpida sensação
de que sem pílulas e produtos perecíveis
você talvez corte os pulsos
cuidando para não sujar o estofado novo.
eu sou o acrobata do semáforo
e você não me vê mais. respiro o ar
que está fora dos vidros fechados
que nos separam. faço agora minhas acrobacias
no seu vazio interno, aquele que você não quer ver
e que os donos de caixas eletrônicos,
de empresas de nomes estrangeiros e alfanuméricos,
publicitários, políticos e jornalistas comprados
não querem que você veja.
sou parte desse enigma, dessa esfinge
que silenciosamente atormenta sua paz fictícia.
fictícia, diga comigo: fictícia.
Lucas Bronzatto
No dia 10 de Setembro (2011) estive na Biblioteca Monteiro Lobato (São Bernardo do Campo, SP) para falar um pouco sobre meus poemas a um grupo de pessoas que participam do Projeto Tantas Letras, que tem a curadoria do poeta Tarso de Melo, a quem agradeço o convite.
Depois da boa conversa, propus ao grupo que (a quem desejasse, claro) criasse sua própria versão da Acrobacia, que tomou um corpo enorme, um descontrole, como já postei outras vezes aqui.
Três versões muito fortes e bonitas me chegaram por agora e mostro aqui para vocês.
Olá Carlos, adorei a brincadeira no Tantas Letras, e aqui está minha segunda versão do poema “Acrobacias”, a primeira postei em outro comentário do blog, acho que no lugar errado.
ACROBACIAS NO “BUSÃO”
Eu sou o acrobata do busão e ninguém percebe.
Estico braço pro sinal, pulo pra trás pra evitar a colisão,
Corro e me espremo no meio da multidão.
Subo os degraus feito recheio de pastel.
Sou contorcionista entre os passageiros,
E no labirinto formado por corpos humanos,
Uns suados, outros perfumados,
Uns magros, outros gordos,
vou contornando até chegar a roleta.
E mais malabarismos faço
e com o indicador direito aliso, aliso
pra liberar a passagem.
E faço contorcionismo. Tento abrir Os Contos da Rua Brocá,
e viajar nas aventuras, mas os vidros fechados, tiram-me o ar
E então sinto vertigem.
Já tentei o Pequeno Príncipe, mas seu mundo genial estava fechado pra tanta opressão.
Então volto pro mundo interior do ônibus.
reparo as espécies humanas, apertadas, cansadas, falantes, ofegantes.
Sento no banco de trás e ninguém me vê.
Respiro o ar que não é só meu.
Observo os rostos enigmáticos, também acrobatas.
Que lutam e sonham como eu.
Sueli Rodrigues