no dia do teu aniversário será possível avistar duas luas no céu. explico, com precisão e solenidade que a ciência nunca me permitiu, que marte vai estar mais brilhante e será possível enxergá-lo tal qual a lua, a mesma de sempre. concluo a dizer que próximo evento só irá acontecer novamente em 2.287. você se admira de tudo isso e de um tanto de coisas que sempre falo: verdade? mas sorrio. e, dessa forma, tu já aprendes a desconfiar. e esta correspondência tem um único destinatário, meu correspondente secreto nalguma agência de notícias sentimentais. eu te transmito o último atentado, o último cargueiro raptado por piratas somalis, o vírus da moda, a übermodel mais linda. eu te transmito toda segurança, de ser grande, ter três metros de altura atravessando a rua em direção do teu edifício. eu te transmito meus cumprimentos e aquela sensação boa e estranha e conforto. aquela mesma, na hora em que acariciava certo nome inscrito no metal que demarca o lote onde repousa tua mãe. seu terreno. minha única lavra. e ainda escuto você dizer: isso aqui é meu. enquanto nada digo. e tu ruminas um punhado de sentido. o teu conforto, a tua mágica. e eu, silencio. você me guarda um segredo, o mesmo do pedido feito ao atirar o dente de leite no telhado. ou aquele astro que cai no céu. o mesmo céu onde hoje avistas duas luas no dia do teu aniversário. até alguém falar em marte e marte me fazer cair das nuvens e em queda livre divago que outro evento igual não verei. nem tu. não estaremos aqui. nem ninguém.



