Feeds:
Posts
Comentários

 

no dia do teu aniversário será possível avistar duas luas no céu. explico, com precisão e solenidade que a ciência nunca me permitiu, que marte vai estar mais brilhante e será possível enxergá-lo tal qual a lua, a mesma de sempre. concluo a dizer que próximo evento só irá acontecer novamente em 2.287. você se admira de tudo isso e de um tanto de coisas que sempre falo: verdade? mas sorrio. e, dessa forma, tu já aprendes a desconfiar. e esta correspondência tem um único destinatário, meu correspondente secreto nalguma agência de notícias sentimentais. eu te transmito o último atentado, o último cargueiro raptado por piratas somalis, o vírus da moda, a übermodel mais linda. eu te transmito toda segurança, de ser grande, ter três metros de altura atravessando a rua em direção do teu edifício. eu te transmito meus cumprimentos e aquela sensação boa e estranha e conforto. aquela mesma, na hora em que acariciava certo nome inscrito no metal que demarca o lote onde repousa tua mãe. seu terreno. minha única lavra. e ainda escuto você dizer: isso aqui é meu. enquanto nada digo. e tu ruminas um punhado de sentido. o teu conforto, a tua mágica. e eu, silencio. você me guarda um segredo, o mesmo do pedido feito ao atirar o dente de leite no telhado. ou aquele astro que cai no céu. o mesmo céu onde hoje avistas duas luas no dia do teu aniversário. até alguém falar em marte e marte me fazer cair das nuvens e em queda livre divago que outro evento igual não verei. nem tu. não estaremos aqui. nem ninguém.

 

 

 

 

O poeta mineiro Ricardo Aleixo é um dos artistas que mais admiro, hoje, no país. Mas, poeta é pouco para tratar dos vários tentáculos e articulações que empreende ao seu trabalho. Quem quiser ver um pouco do que faz, acesse: http://jaguadarte.blogspot.com/  . Ricardo me enviou sua versão para a acrobacia. O que de cá, fiquei muito e muito feliz. Uma acrobacia sonora, uma ambiência vocal. As limitações técnicas do WordPress me impediram de postar a voz de Ricardo diretamente aqui. É preciso dinheiro, notas verdinhas e frescas para fazer isso. Nossa ilusão de liberdade nesse universo virtual. Com um pouco de paciência, você clica nesse link:

 
e poderá ouvir o poema de Ricardo Aleixo que era meu, agora não mais. Ouça no volume máximo.

Eu sou a acrobata do banco da frente. Só você me vê. Me equilibra do lado. Na ponta dos dedos. Reflito no espelho. Algum sorriso que diz enquanto me sustento a este cinto que me amarra, me livra do mal e do acaso. Eu sou a acrobata do banco da frente. E sento ao lado. Enlaço os dedos no seu cabelo como se quisesse chegar aquele lugar comum. Vou deixar os vidros abertos-semi-abertos na esperança de que nos cruzem na velocidade. O amor, talvez. Você me vê. Respiramos o mesmo ar; estamos juntos. Explodimos com discreta naturalidade. Entre um passo e outro, espero. Nossa certeza decifra. Abismo. Repita comigo: me abismo.

 

 

 

 

( Camila Pereira)

 

 

 

 

 

Postar esta acrobacia é quase como um pedido de desculpas. Explico. Camila me mandara ainda ano passado esta beleza de versão. Mas eu, confesso, quase a perdi. Como pode? Como deixar de mostrar aqui? Finalmente, esta acrobacia redescoberta. Com um sabor melhor, acredito.

MANUAL DE ACROBACIAS

(EM NOVE LIÇÕES)

I

acrobata do banco

de trás só

não me vê

II

contorcionista

me livra do

mal sorte ruim acaso

III

minutos finais você

embora vago

rosto triste miúdo

IV

acendedores de fogão

fósforos calmantes

naturalidade

V

vidros semi

abertos esperança

oxigenar o mundo alguém

VI

corte nos pés o

estofamento novo o

ar o respiro separados

VII

entre um passo e

outro a espera a

fila o enigma

VIII

senhas alfa

numéricas esfinge

possível abismo

IX

um abismo digo

comigo um

abismo

28.12.09

(Alexandre Barbalho)

 

 

 

 

 

As experiências com as acrobacias estão de volta. Não pude deixar de postá-las, uma vez que me foram ofertadas versões interessantíssimas, que me chegaram logo no princípio do ano, como prenúncio de um novo ciclo. Quem sabe. E para início de conversa, uma versão de Alexandre Barbalho, amigo querido e de carinho soberbo, que fatiou o poema original. Alexandre retornou ao verso, com força e gosto e, em breve, lança livro novo. Aguardem.

Para quem pegou o bonde andando, aqui nesses trilhos tortos, ou simplesmente foi chegando de manso, esses poemas que não são mais meus, mas de outrem, surgiram a partir da provocação de meu último livrinho, “Manual de Acrobacias n.1” (Editora da Casa – Florianópolis/ Editora da Vila – Fortaleza, 2009), onde 72 versões do mesmo poema se repetem tal qual um mantra (já disseram) numa ilusão da própria repetição, uma vez que cada um deles é único, particular e foi ofertado a 72 pessoas diferentes, ainda por volta de 2007, como uma experiência da sobrevivência e do afeto. Após a publicação dos poemas em livro, surgiram versões para a acrobacia das mais variadas. Perdi o controle sobre isso. Perdi o controle sobre o poema, que não é mais meu, mas de quem o reinventa. Muitas vezes, é preciso perder o controle sobre as coisas.

 

31.12.2009

para dentro, é preciso ficar. um silêncio,

uma vibração de silêncio, contido,

atento e contido. como os peixes,

vértebra de baleia no último dia.

para dentro. observar fundo um tempo.

as latas de guloseimas, cardápio de ceia,

drink, mas olhe para onde

nunca é possível olhar.

hoje. só hoje. mesmo tarde se comova

para um silêncio, grama, carpete de

folhagem de palmeira quieta.

e chore. sabor de lágrima, sabor do brut,

sabor maçã. fique quieto. veja faíscas,

sua memória favorita, esteja no mar,

em lugar nenhum. nesse momento: aqui.

 

 

 

carlos augusto lima (vinte e sete de janeiro, lumme editor, 2008)

 

encontre aqui

25.12.2009

 

feliz natal para você. uma

família inteira no sinal, a mãe,

um asseio de água turva, o vidro

turvo, a cabine do carro, lacre do

mundo hostil e feio e turvo. lâmpadas

chinesas, santos da cristandade e

fabricação chinesa. não entendo o que você

diz, a sua voz rápida e pobre. meu

objeto de cerco, sua voz doce

depois do banho. o banho na calçada.

o dia como um caldo denso, gigante de

presas, inferno e purgante.

a turista italiana sorri na motoneta amarela

contra algumas modulações,

como aquelas de um humor próximo

de vime e candura, ou ar desistindo

de mover, furor de suspeita

que chove em fevereiro.

 

 

carlos augusto lima  (vinte e sete de janeiro, lumme editor, 2008)

 

 

encontre aqui

foto: c.a.l.

eu sou uma pequena acrobata na garupa insegura da sua bicicleta e você só me vê até o final do ano de oitenta e sete, porque vai sair de casa para comprar um maço de cigarros e nunca mais voltará. vou levantar as mãos para o céu quando o dia acabar, quando sacudirmos os pés sujos de areia e cruzarmos aquele maravilhoso empreendimento na praia devastada pela maresia, pela pobreza, pelas crianças armadas e pelo fogo. você deixa as duas mãos presas o tempo todo no guidon encurvado para que ladeira abaixo desçamos de maneira desembestada, mas segura, para que alguém pouco nos veja, ninguém roube ou ameace o nosso apurado do dia quente: peixes, lambretas, camarões lustrosos e frios e um copo roído. enquanto as outras crianças vão à escola com o sapato municipal padrão você me leva ao trabalho: rede, de vez em quando um anzol e vento, imensidão, e vento. eu de cima da bicicleta, vejo o quintal do governador brilhando de água espalhada e você diz com propriedade que “aquele é o aguador molhando a grama da burguesia”. já em casa, como cozinhar o peixe se estamos sem fósforo, se os acendedores do fogão pifaram. o lugar onde moramos é Areia, nome de deserto ou de nada, à beira de uma lagoa pavimentada pelo projeto novo da prefeitura. de novo, você me amarra com cuidado em minha cadeira da garupa da sua bicicleta e já não sou mais a pequena acrobata e já não me lembro mais de nada. ou lembro: uma espera na fila do mercado, palitos, cebolas e maracujá, um calmante natural para que se exploda, sim, mas com discreta naturalidade. na fila do caixa eletrônico do supermercado que subiu sobre nosso pequeno e torto bairro, uma mulher loura se acomoda segurando seu papel: uma senha disfarçada de número de telefone, seu comportamento esfinge seu medo um enorme abismo – ninguém tem conta do banco e quando é a hora de subir a ladeira pra casa segurando compras, fósforos, cebola, você me carrega nos braços e empurra com cuidado a bicicleta branca. ainda não sei dizer: bicicleta. você me olha e tenta, você tenta os fonemas e minha língua de criança: bicicleta. repita comigo. bicicleta.

 

                                (Mariana Marques)

 

 

 

Esta é a primeira narrativa das “acrobacias”. Mas bem que poderia ser um poema. Mas o que vem a ser já não importa. Se isso ou aquilo, neste lugar ou naquele. E esta é a última acrobacia que recebi. Talvez seja a última postada aqui. Não sei o que pode acontecer. Para onde as coisas vão. Só sei que Mariana Marques (http://marianamarques.posterous.com/) me mandou este texto bonito, como são bonitos os textos outros que ela escreve. E Mariana foi a grande descoberta desse ano. Uma amizade bonita que se estica num sem fim. Que tem um conforto na fala, de saber que alguém quase fala como você e já imagina o que você irá falar e ri do que menos se espera. No futuro, vamos publicar uma gramática do nosso idioma.

 

Postagens Antigas »