eu sou uma pequena acrobata na garupa insegura da sua bicicleta e você só me vê até o final do ano de oitenta e sete, porque vai sair de casa para comprar um maço de cigarros e nunca mais voltará. vou levantar as mãos para o céu quando o dia acabar, quando sacudirmos os pés sujos de areia e cruzarmos aquele maravilhoso empreendimento na praia devastada pela maresia, pela pobreza, pelas crianças armadas e pelo fogo. você deixa as duas mãos presas o tempo todo no guidon encurvado para que ladeira abaixo desçamos de maneira desembestada, mas segura, para que alguém pouco nos veja, ninguém roube ou ameace o nosso apurado do dia quente: peixes, lambretas, camarões lustrosos e frios e um copo roído. enquanto as outras crianças vão à escola com o sapato municipal padrão você me leva ao trabalho: rede, de vez em quando um anzol e vento, imensidão, e vento. eu de cima da bicicleta, vejo o quintal do governador brilhando de água espalhada e você diz com propriedade que “aquele é o aguador molhando a grama da burguesia”. já em casa, como cozinhar o peixe se estamos sem fósforo, se os acendedores do fogão pifaram. o lugar onde moramos é Areia, nome de deserto ou de nada, à beira de uma lagoa pavimentada pelo projeto novo da prefeitura. de novo, você me amarra com cuidado em minha cadeira da garupa da sua bicicleta e já não sou mais a pequena acrobata e já não me lembro mais de nada. ou lembro: uma espera na fila do mercado, palitos, cebolas e maracujá, um calmante natural para que se exploda, sim, mas com discreta naturalidade. na fila do caixa eletrônico do supermercado que subiu sobre nosso pequeno e torto bairro, uma mulher loura se acomoda segurando seu papel: uma senha disfarçada de número de telefone, seu comportamento esfinge seu medo um enorme abismo – ninguém tem conta do banco e quando é a hora de subir a ladeira pra casa segurando compras, fósforos, cebola, você me carrega nos braços e empurra com cuidado a bicicleta branca. ainda não sei dizer: bicicleta. você me olha e tenta, você tenta os fonemas e minha língua de criança: bicicleta. repita comigo. bicicleta.
(Mariana Marques)
Esta é a primeira narrativa das “acrobacias”. Mas bem que poderia ser um poema. Mas o que vem a ser já não importa. Se isso ou aquilo, neste lugar ou naquele. E esta é a última acrobacia que recebi. Talvez seja a última postada aqui. Não sei o que pode acontecer. Para onde as coisas vão. Só sei que Mariana Marques (http://marianamarques.posterous.com/) me mandou este texto bonito, como são bonitos os textos outros que ela escreve. E Mariana foi a grande descoberta desse ano. Uma amizade bonita que se estica num sem fim. Que tem um conforto na fala, de saber que alguém quase fala como você e já imagina o que você irá falar e ri do que menos se espera. No futuro, vamos publicar uma gramática do nosso idioma.

